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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Modo Poético (II)

Um poema (do nada):
vaga anatomia.
Quando a merencória equação
se resolverá?
Infindável incógnita
matemática.
Ara e semeia
a seara – poesia.
Colhe a palavra
fruto,
sentido e forma
afora –
Ah, voluptuosas
curvas da metáfora,
há quanto resisto
a tua investida imprópria,
a tua fácil carcaça?
Há quanto
roço-me em tua
epiderme,
teus beiços e tuas tetas
e mesmo assim
te manténs inviolada?
Poesia incauta,
dedico a vida
atrás da perfeição –
porém sequer
lhe distingo
a feição, a silhueta.
Escarro sobre
a folha
o que me resta,
estas palavras
hepáticas,
amarelecidas –
um rastro vago
do que seria poesia.
Duvidá-la,
a ela de si mesma,
subtraí-la.

Eis a única
ideia válida
que o rebuliço
do meu pensamento
um dia pariu.
Já o resto...
o que vale
o resto de quem
as sobras são
o suficiente?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Modo Poético

um poema
não é o pensamento
ou o expressá-lo.
Não é o como
entre tantas formas
dum dizer-se se
dizer.
Pois que o poema
parece ser
a sucessiva
afirmativa dum
não.
Ou a negação
veemente
duma afirmação
sucessiva.
Qualquer coisa antitética.
Qualquer forma vária
que plana
mas não se adivinha.
Pois só é possível
duvidá-la,
a ela de si mesma,
subtraí-la.
Obter a forma final,
o produto da equação,
no mecanismo
matemático
infindável, cuja incógnita
terá solução
quando a equação,
cifrada à sua forma, revela
a matéria vaga
do nada, isto é,
um poema


Valete, Fratres.